terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A FEIRA E OS GRANDES HOMENS DOS SÉCULOS PASSADOS

É muito difícil imaginar como era Feira de Santana no segundo quartel do século XIX. Ligada à Cachoeira por estradas estreitas, dentro das matas que hoje formam o município de São Gonçalo; embora houvesse uma pequena melhora com o alargamento da estrada, os problemas continuavam com os grandes declives, principalmente em “capoeruçú” nas proximidades de Cachoeira.
É bom lembrar que houve infrutíferas tentativas de formação de uma empresa internacional, a exemplo da “Paraguaçu Steam Tram Road Company”. Além dessa, houve outras tentativas, CPOR parte do Governo Federal, para a construção da ferrovia que ligaria Feira de Santana a Cachoeira. Mas os custos com uma estrada ferroviária, passando pelas ladeiras íngremes eram muitíssimos altos, principalmente porque ainda não havia maquinários nem os recursos que dispomos hoje.
Foi então que apareceu um homem de visão e inteligência excepcionais, o Coronel Joaquim Pedreira de Cerqueira que em 1858 construiu, às suas expensas, uma nova estrada, por terreno plano, capaz de resolver quase todos os problemas que a estrada de “capoeruçu” causava.
Na verdade, foi só a partir dessa estrada construída pelo Coronel, que se implantou uma ferrovia em Feira, a partir de 1867. Talvez ainda por sua influência ,Feira de Santana teve o seu Juizado de Paz em 1859. Note-se que nesse mesmo ano, a Feira havia recebido, fidalgamente, na residência do Coronel Joaquim, a visita de D. Pedro, que na oportunidade fez doação, em dinheiro, para que fosse construída a Santa Casa De Misericórdia, a qual só foi concluída em 1865.
Só então profissionais liberais começaram a abrir escritórios e consultórios em Feira de Santana, como se lê nos jornais da época, trazidos à luz da história pelos doutos Carlos Alberto Oliveira Brito e Arcenio José de Oliveira no livro “Memórias”. Os próprios jornais foram frutos desse início do progresso, nossas Filarmônicas, Teatro e Grêmios Literários Dramáticos assentaram então as bases culturais.Neste preâmbulo procuramos mostrar apenas a ação de um homem, Coronel Joaquim, que num gesto de amor a Feira de Santana, fez construir a primeira estrada carroçal, na qual, posteriormente, puderam ser assentadas as linhas ferroviárias e o primeiro transporte mecanizado entre Feira/Cachoeira/Salvador. A estrada existente, conhecida como carreiro ou caminho, só dava passagem a pessoas e animais de carga, em fila, e era íngreme demais para uma ferrovia.
Portanto, podemos afirmar que foi a iniciativa e o trabalho do Coronel Joaquim que trouxe para Feira de Santana o início do progresso que chegou, e continua chegando, aos nossos dias.
Rollie E. Poppino, em seu livro “Feira de Santana” nos conta: “... o tráfego pesado obrigou ao alargamento da estrada, o que foi concluído em 1840. O transporte de qualquer forma era lento e custoso, pelas más condições da estrada, bastante íngreme nas proximidades de Cachoeira. Para melhorar essas condições, fundou-se, em 1846 uma companhia de transporte, para construir uma estrada mecanizada entre Feira de Santana e Santa Izabel do Paraguaçu, via Cachoeira... – Incapaz de levantar o necessário capital, a companhia dissolveu-se antes de iniciar qualquer trabalho na nova estrada. Conquanto nenhum progresso se fizesse por esse tempo, a circunstância de tal companhia ter-se organizado e ter recebido sem demora a devida autorização do governo provincial indicou que se reconhecia a necessidade de um transporte mais adequado. No ano seguinte o Coronel Joaquim Pedreira de Cerqueira, de Feira de Santana, começou a construção, às suas expensas, de uma nova estrada para Cachoeira. Ao completá-la, em 1858, teve as despesas em parte reembolsadas pelo tesouro da Província”
Quem foi o Coronel Joaquim Pedreira de Cerqueira? Um homem que hospedou o Imperador D. Pedro II em sua residência nesta Cidade e financiou, anteriormente, a construção de uma estrada da Feira para Cachoeira, um verdadeiro herói quase desconhecido nesta terra, onde sua obra foi de vital importância para desenvolvimento de toda a região. Além de Poppino, somente conhecemos alguns traços biográficos deixados pelo saudoso Professor Oscar Damião em seu Dicionário Da Feira de Santana, nos seguintes termos:
“Era filho do Dr. Gil Pedreira de Cerqueira, Bacharel em Filosofia e Ciências Naturais pela Universidade de Coimbra, bisavô de Pedro Tomás Pedreira, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia”.
Em uma pesquisa no CEDOC (Centro de Documentação) da UEFS, (Universidade Estadual de Feira de Santana) e muito trabalho do professor Luiz Cleber Moraes Freire, foi encontrado na APEB, classificação 1/221 /401/2 às fls. 381, o Testamento Do Coronel Joaquim Pedreira de Cerqueira onde constam as seguintes informações: era natural de São Gonçalo dos Campos, porém viveu, constituiu família no então Povoado de Feira de Santana, onde faleceu em 24/02/1872 (ano em que Feira de Santana foi elevada à categoria de Cidade), deixando dois filhos naturais, Joaquim Pedreira de Cerqueira Jr. e Nerina Clara Pedreira de Cerqueira, além de mais sete filhos do casamento. Posteriormente os filhos naturais foram legitimados.
Dentre os sete destacamos o filho Tenente João Pedreira de Cerqueira que fez algumas construções em Feira e empresta o seu nome à praça principal desta Cidade e foi o inventariante. Também descobrimos que o Dr. Gil era seu filho e não pai como se pensava.
Dentre os bens deixados pelo Coronel, constam mais de cinco engenhos de cana de açúcar, dezenas de fazendas, 128 escravos, alto número de ações do Banco do Brasil, do Banco Mercantil, do Banco da Bahia, apólices da dívida pública, 2.466 cabeças de gado, sobrados, sendo todos os bens do “De cujus” avaliados em 1.281:287$045 (hum milhão, duzentos e oitenta contos e duzentos e oitenta e sete mil réis e zero quarenta e cinco derreis). Difícil de calcular com a nossa moeda atual, mais em comparações entre objetos e valores, pode-se afirmar que sua fortuna, atualizada hoje, seria de aproximadamente 100 milhões de reais.
É necessário que se faça justiça à memória daquele grande feirense, para que não continue esquecido como tantos outros, o foram.

2 comentários:

Gabriel Sermenho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel Sermenho disse...

Antônio,
Sou carioca e estou visitando pela primeira vez a Bahia, apesar do meu avô ser baiano. Ele me contava muitas histórias sobre a sua infância e adolescência em sua terra. Ficava fascinado com suas histórias. Meu avô sempre me falou da importância de sua família para Feira de Santana, mas não fazia idéia do tamanho desse feito. Ele faleceu este ano e em sua memória visito a Bahia. Hoje, meu primeiro dia em Salvador, visitei a igreja de São Francisco e o lugar que mais me chamou a atenção nessa grandiosa obra foi o ossuário. Lá me deparei com uma lápide de um Pedreira de Cerqueira, sobrenome de que meu avô compartilhava. Diante dessa coincidência, decide procurar informações sobre a família e fui muito feliz de encontrar essa página escrita por você. Aqui encontrei parte das palavras contadas pelo meu velho avô. Nesse momento, estou extremamente emocionado de saber um pouco mais da história da minha família, um pouco mais da minha história. Se esta fosse uma carta de papel, estaria banhada de lágrimas, lágrimas pela sorte que tive de ler essa página, lágrimas de orgulho de minha família e lágrimas da saudade que tenho do meu velho avô. Que Deus o tenha. Muito obrigado.
Abraços!
Gabriel Sermenho de Cerqueira

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