quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A velhice na opinião de um octagenário

Antes de tudo, para evitar dúvidas, é de bom alvitre esclarecer que existem dois tipos de velhice: a do tempo e a do espírito. Pode-se chegar aos 80 ou 90 anos de idade com o espírito jovem, como se pode ter um espírito velho em plena maturidade. Alguém já disse que “a velhice é um estado de espírito”.
Assim, falarei da minha velhice que, às portas dos oitenta e dois anos, considero-a de espírito jovem. Claro que não se pode confundir espírito jovem com jovialidade física: Espírito jovem é aceitar e participar do progresso, é entender os anseios e desejos dos adolescentes (eles é que não podem nos entender, pois nunca foram velhos) e, principalmente, aceitar a velhice, vendo sempre o seu lado positivo, sem esquecer de cuidar dos encargos que elas nos trazem na parte da saúde. Mesmo assim temos de aceitar os encargos como tributo daquilo que usufruímos na mocidade, e não como um “mal da velhice”.
Aos oitenta anos temos uma enorme bagagem de experiência, adquiridos na vivência do dia a dia em um milheiro de meses de trabalho, observações e reflexões. E nesse período, entre as difíceis lutas pela sobrevivência, as decepções e os pequenos momentos de prazer, é que se forja a personalidade e o caráter do indivíduo. A velhice nos chega tão sorrateira que quase sempre nem a notamos, senão fisicamente.
Amo a minha velhice. Foi nela que aprendi o verdadeiro sentido da felicidade, aquela mesma felicidade que todos buscam pelos mais variados e heterogêneos caminhos, sem notar que a felicidade está dentro de nós, acompanhando-nos em todos os momentos da nossa vida, nas mais insignificantes coisas que fazemos, embora não a sintamos de imediato. Um sorriso, uma carícia recebida ou dada, um panorama da natureza, a fragrância das flores nos campos, um encontro com um velho amigo, um bom programa de televisão, as reuniões de família, uma peça no teatro, uma ajuda que se presta a um necessitado... e tantas coisas agradáveis que nos acontece no dia a dia, são pequeninas gotas de felicidade que nunca arrolamos junto às viagens ao exterior, a alegria de um carro novo, um apartamento, ou uma tarde de compras no shopping.
Foi também na velhice que encontrei toda a perfeição do amor. E quando falo em amor não me refiro às violentas paixões da mocidade nem às efêmeras atrações sexuais. Falo do amor como força suprema que preside todas as causas do ser universal. O amor que nos impele à luta pela vida, em favor dos entes queridos, do mesmo modo que nos faz renunciá-la pelo bem das mesmas pessoas. Falo do amor Onipotente, Onipresente e Onisciente. O amor essência: O Amor-Deus.
A velhice é o prêmio que o tempo confere aos que souberam preservar a vida. E a velhice tranqüila é outro prêmio que a vida oferece aos que souberam vivê-la com dignidade e muito amor.
Na minha velhice a única falta que sinto é do vigor da mocidade, mas consola-me saber que muito mais falta me fez na mocidade a experiência que me sobra na velhice. Infelizmente, o vigor da juventude e a experiência da velhice não se coadunam, embora os velhos dependam dos jovens para fazerem o hoje, como os jovens dependem dos velhos para conhecer como fizeram o ontem, e farão o amanhã.
Para mim a velhice é a gloria de ter vencido a maratona da vida, com o orgulho de ter conquistado o grande troféu que ela me deu: uma excelente família.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

De poeta e Louco...

Não é privilégio das classes dominantes fazer a história. Aliás não é privilégio de quem quer que seja. A história simplesmente acontece e envolve todos e tudo que estejam no seu caminho. Cada momento do nosso passado guardado na lembrança é um pedaço da história íntima de cada um.
Assim como guardo no baú de recordações os nomes dos grandes administradores do Município, Industriais, Comerciantes, Poetas, Músicos, Professores, Jornalistas, fazendeiros e outros contemporâneos, também guardo os apelidos pelos quais atormentávamos as inocentes vítimas das nossas cruéis brincadeiras, como “Ratuim de Igreja”, “Barba Dura”, “Bom no Bife”, “Raposa”, “Fulô de Bredo”, “Seu Cobra”, “Pano de Pegar Panela” etc.. Também não esqueço do folclórico “Benzinho Cadê a Ema”, do politiqueiro “Mário Ferro Velho” ou do perverso “Dobe”.
Há pouco tempo a Prof. Lélia Vítor Fernandes de Oliveira lançou o livro “Cidadãos do Mundo” onde biografou cerca de 170 desses personagens folclóricos de Feira nos últimos 60 anos. O Poeta Alberto Boaventura, em seu livro Estórias e Fatos, fala desses Cidadãos do Mundo. Mas existem outros que vamos tirando do esquecimento. Nesta crônica falarei sobre o mulato que apareceu aqui em Feira, logo depois da seca de 32, dizendo chamar-se Zé Poeta. Como tinha o rosto cheio de manchas bem escuras, logo os estudantes alcunharam-no de “Pano de Pegar Panela”. Como ele reagia furiosamente ao apelido, ficou preso a ele. Mas, como “cada doido tem sua mania”, quando ele se sentia muito acuado pela garotada, depois de proferir impropérios, corria sempre em busca de uma Igreja onde se abrigava e a molecada respeitava o Templo.
Como ele era muito católico, constantemente era visto participando de atos religiosos e adorava cantar as músicas da Igreja. Um dia o “Dobe”, o maior moleque de Feira, filho de comerciante destacado, vendo que o Zé Poeta estava ajoelhado e cantando em um ensaio qualquer, com o firme propósito de molestá-lo entrou também na Igreja e ajoelhou-se no banco que ficavas atrás de sua vítima. No momento todos cantavam: “Meu coração/ é só de Jesus/ a minha alegria/ (Dobe, em vez de dizer é a Santa cruz) disse: é pano de pegar panela....” Naquele momento o Zé Poeta mostrou a sua arte e, sem sair do rítimo, repetiu a estrofe assim; Eu subi na jaca mole/ foi a dura que caiu/ pano de pegar panela/ é a P... que o pariu!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Entre amigos

Ao lado dos grandes amigos Dimas Oliveira (á esq.) e Adilson Simas (á direita)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A Santa Casa de Misericórdia

Quando D. Pedro II resolveu visitar Feira de Santana, em 1859, coincidentemente estava em plena atividade o movimento da elite feirense com o objetivo de angariar fundos para a construção da Santa Casa de Misericórdia. Aproveitando a presença do Imperador, uma comissão dirigiu-se ao Monarca e solicitou a sua colaboração para a fundação da Santa Casa. Depois de ouvi-los, o Imperador fez uma doação de dois contos de reis, quantia considerável e que foi decisiva para a fundação, e que levou seus fundadores a denominar a Santa Casa de IMPERIAL ASILO DOS ENFERMOS em 25/03/1865, data da sua inauguração, tendo posteriormente voltado ao nome de Santa Casa de Misericórdia. É oportuno lembrar que o prédio da Santa Casa foi construído antes de 1865 por um fazendeiro, para sua residência, e depois vendido para a Fundação da casa hospitalar que a adaptou para os fins devidos.
Durante quase um século A Santa Casa foi a única casa hospitalar gratuita de Feira, socorro para todos os casos, amparo para todos os doentes da região. Muitos médicos foram atraídos pela casa de saúde, fazendo de Feira um posto avançado de assistência médica na região. O primeiro médico feirense foi Wilson da Costa Falcão, nascido em l918 e diplomado em 1945, quando a Cidade já contava com mais de uma dezena de médicos.
A Santa Casa de Misericórdia, até a década de 50, alem de prestar assistência médico-hospitalar a todos os necessitados, também dava ao seu provedor grande prestígio político, o que fazia o cargo muitíssimo disputado.
O fim da construção do Hospital D. Pedro e a transferência da Santa Casa de Misericórdia para o hospital aconteceu no ano de 1956, no governo municipal de João Marinho Falcão.
Transferida a Santa Casa, o velho casarão abrigou por alguns anos o Batalhão da Polícia Militar e posteriormente ganhou o pomposo título de Palácio do Menor, onde se pretendia abrigar o menor desamparado.
Um século e meio depois da sua construção o prédio está vergado sob o peso da ignorância de uma elite que pensa muito em ganhar dinheiro e esquece da memória de Feira, e de políticos que investem todos os seus esforços no futuro de sua eleição, esquecidos que os seus próprios descendentes, certamente mais cultos, irão julga-los e condena-los pelo descaso, desamor e covardia que os fizeram cúmplices da demolição de monumentos históricos que foram símbolos de uma época gloriosa da Princesa do Sertão.
Ontem foi o Cine Teatro Santana, a “Chácara de Tertuliano Almeida”, o Solar Santana, símbolos da mesma época, que foram destruídos em nome de um progresso que apenas esconde o verdadeiro nome da ganância. Amanhã será o prédio da velha Santa Casa de Misericórdia, a antiga Escola Maria Quitéria, etc. etc.. Em troca abre-se centenas de estacionamentos que dão bons lucros ao dono, quase nenhuma renda para Prefeitura e denegrecem a imagem da Cidade.
Mas a história não perdoa e espero que ela seja rigorosa com essa elite atual que tanto explora a Princesa e destrói a sua memória.
Lembrei-me do deputado baiano Joel Presídio que, em 1951, fez um pedido a Deus para os seus opositores, e vou fazer o mesmo pedido para os gananciosos que desprezam a memória de Feira: “Deus, mandai uma chuva de cangalhas para essa gente!!!”

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Verdades que serão folclore

No ano de 1960, já proprietário da fazenda Lajedinho em América Dourada, então Vila da Comarca de Irecê, fui convidado para assistir a um jogo de futebol entre as equipes de América e da Lapinha, povoado próximo. Como era a única distração local, compareci. Começou o jogo e o time local terminou o primeiro tempo com a vantagem de 3 a 0.
O time da Lapinha se reuniu, conversou, mudou a estratégia do jogo e entrou em campo para o segundo tempo com todo o time no ataque, deixando a defesa desguarnecida. O time de América Dourada aproveitou e fez 4,5,6,7,8, a 0. Então o time da Lapinha recuou mas o adversário, no embalo, fez o nono gol. Naquele momento o goleiro pegou a bola e saiu correndo em direção do povoado, sob as vaias dos espectadores. Como não entendi o porquê daquela fuga do campo, perguntei a Sandó, diretor do time local, e ele me explicou: “há um acordo entre os times que, se um perder de 10 gols, é obrigado a entregar a sua bola ao adversário... e aquela bola pertencia ao time visitante.”
Mas Feira de Santana também teve seus astros em todos os campos da incultura. Quem não se lembra daquele velho bondoso e rico, João Mamona ? Corpo avantajado, voz alta e grave, belo anel de brilhante, charuto entre os dedos e um largo sorriso. Exportador de fumo, tinha todas as qualidades boas, mas era inculto. Resolveu candidatar-se a uma cadeira na Câmara de vereadores, o que foi bom para os estudantes e amigos que não se cansavam de fazer perguntas, vez que nos comícios ele só aparecia para cumprimentar o povo. Um dia, ele contou ao velho Otavio Nogueira que o povo de Feira ia ter uma grande surpresa quando chegasse a “tamancada” de votos da Paraíba para sua eleição, pois tinha muitos amigos em Campina Grande e estava pedindo os votos de lá. Os votos não vieram, mas ele elegeu-se vereador com os votos do povo de Feira que gostava do bonachão que existia nele. A eleição foi fácil, mas fazer discurso ou defender um projeto, não era coisa que soubesse fazer. E nunca fez.
Uma vez estava sendo discutida a mudança ou não do delegado local. Quando os ânimos estavam exaltados, João Mamona levantou e falou bem alto: “Eu quero um aparte!” – Silêncio de profunda surpresa, que ele quebrou dizendo “Incelências, vocês tão perdeno tempo. Delegado é que nem varão de porteira: se tira um e se bota outro”. Estava interrompida a discussão. Afinal era o primeiro pronunciamento do “ilustre” vereador. Tudo acabou em gargalhadas, cumprimentos e abraços ao novo orador.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Av. Senhor dos Passos acordou mais triste...

Eis a Avenida Senhor dos Passos do meu tempo, e que hoje acordou mais triste ao se encontrar sem a sua maior admiradora, a nossa querida Irma Amorim.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

As Grandes Filarmônicas de Feira

Feira de Santana já teve dezenas de Clubes, sendo que dois, Melindrosas e Filhos do Sol se destacaram desde o início do século até 1940 quando se firmou a Micareta e surgiu a fundação do Tênis Clube em 1946.
Mas as três Filarmônicas feirenses fizeram história. Criadas com o objetivo cultural de desenvolver a arte da música ao nível do Teatro e Escola de Piano, já existentes, surgiram em épocas distintas, mas muito próximas da primeira a ser criada no Estado da Bahia, Sociedade Filarmônica Erato Nazarena, fundada em 1863, cinco anos antes da primeira em Feira de Santana:
A Sociedade Filarmônica 25 de Março foi fundada em 25 de março do ano de 1868 pelos senhores João Manoel Laranjeira Dantas, Eduardo Franco, Afonso Nolasco, Antonio Joaquim da Costa, Alípio Cândido da Costa, José Pinto dos Santos, Joaquim Sampaio, Francisco Costa, Galdino Dantas, Juvêncio Erudilho, José Nicolau dos Passos, Alexandre Ribeiro, Joviniano Cerqueira, Pedro Nolasco Néu e Tibério Constâncio Pereira. Cinco anos depois houve um desentendimento entre os membros da diretoria e criou-se uma dissidência.
Como o Padre Ovídio Alves de São Boaventura se encontrava fundando a Sociedade Filarmônica Vitória, os dissidentes da 25 de Março juntaram-se ao Padre e, em 1873, foi criada mais uma Filarmônica, a Vitória, sob a regência do Sr. Manoel Tranquilino Bastos.
Quarenta e oito anos depois, em 17/12/1921 o Cel. Leolindo Ramos Junior, juntamente com Lídio Barros, Anacleto Mascarenhas, Mestre Porcinio, Álvaro Lima e outros fundam a Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense. Mas é o Sr. Hermínio Santos, sócio da firma Marinho, Santos & Cia., quem, com seus próprios recursos, a manteve durante a sua vida, legando-lhe ainda parte dos seus bens imóveis. Foi o grande baluarte, o líder perpétuo.
A Sociedade Filarmônica 25 de Março, 59 anos depois de fundada, por questões internas, dissolveu o corpo musical e fechou suas portas. E assim ficou até 1931 (04 anos) quando o Cel. Américo de Almeida Pedra, voltou a residir em Feira de Santana. Foi então que o velho herói das lutas horacianos na Chapada Diamantina e combatente contra a Coluna Prestes, convocou os velhos companheiros como Antonio Cipriano Pinto, Alfredo de Castro, Euclides de Souza Pinto, Alfredo Pereira, Argemiro Souza e o Maestro João do Espírito Santo, com os quais constituiu uma diretoria, tendo ainda a colaboração dos homens de destaque de então: Arnold Ferreira da Silva, João Marinho Falcão, Raul Ferreira da Silva, Heráclito Dias de Carvalho. Carlos Rubinos Bahia, Adalberto Pereira, Dálvaro Ferreira da Silva e tantos outros que faziam parte da elite feirense. Juntos soergueram a primogênita Filarmônica de Feira.
Vale destacar que essas três filarmônicas tiveram grandes Maestros compositores como os Professores Estevão Moura da 25 de Março, Tertuliano Ferreira Santos da Vitória e Álvaro Lima (Vovô) da Euterpe, que alem de ensinar a Música e a arte dos instrumentos musicais, ainda compunham músicas das mais diversas categorias.
Pena que já não temos homens do quilate dos nossos antepassados, com honrosas exceções, capazes de lutar por aquilo que foi tradição da nossa gente. Certamente vamos ser obrigados a pedir a uma Filarmônica de outra Cidade que venha tocar a marcha fúnebre no sepultamento das nossas centenárias filarmônicas.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Antiga Estação Ferroviária

A história é costurada como uma colcha de retalhos. O dia a dia é vivenciado por milhares de pessoas em uma mesma cidade porem cada um vive os momentos de forma diferente do outro. Posteriormente cada um conta um pouco do que viu e depois o historiador junta tudo e dá vida a história. De cima dos meus quase oitenta anos de vida, é natural que goste de falar do longínquo passado.
Na minha infância, na década de 30, Feira de Santana tinha uma grande Estação Ferroviária que, por faltas de rodovias, (em 1930 só existia um carro em Feira) tornara-se o principal meio de transporte de passageiros, cargas e gado, e o
ponto chave do comércio. Situada no fundo da Igreja Matriz (hoje Catedral), quase no centro da Cidade, tinha seus movimentos acompanhados pela comunidade, a qual identificava, pelo apito da máquina, se era trem de passageiro ou carga. Duas ou três vezes por semana saía uma composição com passageiros para Cachoeira, como outras tantas vezes vinham de Cachoeira.
Durante o dia animais de carga e carroças levavam e traziam cargas, vaqueiros embarcavam e desembarcavam gado, enquanto aqueles que tinham o tempo livre, principalmente estudantes que faziam dali um ótimo local de lazer. Era como se fosse uma rodoviária atual, onde alem de passageiros, desembarcassem e embarcassem cargas e animais, sem outro local de escoamento. Nos dias de segunda-feira os trens chegavam carregados com gente, mercadorias, porcos, galinhas e toda produção de Tapera, Magalhães, São Gonçalo, Conceição da Feira, Cachoeira e São Felix. Era uma festa!
Eu, além de um assíduo freqüentador mirim, sempre levava no bolso um bodoque de caça, vez que os fundos da Estação eram um matagal onde as pombinhas costumavam relaxar a vigilância. Foi em uma dessas caçadas que testemunhei um triste acidente na ferrovia:
Era uma ensolarada tarde de verão e eu acompanhava as manobras que uma máquina fazia na substituição de vagões carregados, quando surgiu uma “calanga” verde, com um comprido e lindo rabo dourado. Ela tinha uma maneira elegante de andar, com um harmônico ondular do rabo. Alguns metros atrás , com a cabeça apoiada no trilho da estrada, um galante calango não perdia os movimentos daquele maravilhoso rabo dourado. Tão absorto estava que a roda da locomotiva surpreendeu-o decepando-lhe a cabeça. Pobre calango: POR CAUSA DE UM RABO BONITO, PERDEU A CABEÇA...

Obs: A Fotografia da Estação Velha é dos idos de 1930 e foi copiada do acervo de Tiago Santiago - Memória da Feira.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Acervo Fotográfico "Memória da Feira"

Recebemos uma mensagem do amigo leitor Tiago Santiago que transcrevo abaixo na sua íntegra:

"Caro Antônio do Lajedinho, fiquei surpreendido pela qualidade do seu blog. As sua memórias dariam um livro meu amigo! Igualmente a você, me interesso pela história e estórias da antiga Feira, de tal modo que há algum meses venho tentando disponibilizar à comunidade (via web) um acervo de fotografias que coletei durante a elaboração de uma pesquisa. Inicialmente criei um website destinado a compartilhar estas fotos mas por questões logísticas não deu muito certo. Agora estou disponibilizando-as via Orkut . Queria saber se você pode me ajudar a divulgar o orkut "Memória de Feira".
http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16414771127733217066 "

Claro, Tiago! É com o maior prazer que divulgamos o seu acervo e agradecemos pelo tempo dispensado a promover esta verdadeira coletânea de raridades. Vi muitas fotografias inéditas, e ao lado da minha esposa e nos emocionamos ao relembrar figuras inesquecíveis. Obrigado, meu amigo!

P.S - Indicamos aos leitores que copiem o endereço acima citado e copiem no browser do seu navegador. Importante: É necessário que se tenha conta no orkut para acesso das fotografias.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lampião esteve em Feira... de passagem

A década de 30 chegou no rastro de muita violência política: Coluna Prestes, Coronelismo com jagunços como força dominante, Cangaceiros multiplicando-se em bandos, Revolução de Getúlio, depois a Revolução de São Paulo (Constituinte), Intentona Comunista, nascimento e morte do facismo (Integralismo), Estado Novo etc. etc.
Mas, na vida corriqueira da Cidade, o dia a dia era alimentado por fatos mais próximos do povo, principalmente por aquela violência praticada por Cangaceiros aqui no Nordeste, especialmente pelo Bando mais temido e mais atuante que era o de Lampião, o qual, desde o ano de 1922, crescia em número de cangaceiros e ousadia nos crimes.
Feira de Santana não sofreu diretamente a ação daqueles criminosos por estar muito próxima da Capital e ser considerada uma Cidade grande. Mas, indiretamente, sofreu muito no seu comércio com as Cidades sertanejas, onde qualquer boato afastava os “cacheiros viajantes” das vendas àquelas localidades. Exceção para a região de Morro do Chapéu que contava com o Cel. Antônio de Souza Benta (homem pacifista porem muito destemido e muito mais amado) com
a sua centena de Jagunços permanentes, Nas Lavras Diamantina que tinha no Chefe Cel. Horácio de Mattos a garantia e o respeito de mais de 300 homens armados, o qual dera prova da sua coragem ao perseguir os revoltosos (Coluna Prestes), sitiar uma cidade adversária por 06 meses e posteriormente ameaçar de invadir Salvador, obrigando o Governador a assinar um acordo. Esses foram apenas excessões, como já dissemos.
Na regra geral todo sertanejo, pobre ou rico, sofria, direta ou indiretamente, a violência dos bandidos, hora nas fileiras do cangaço, ora como voluntário nas “Volantes” comandadas por policiais que se igualavam aos bandidos na violência.
Para quem viveu àquela época não há como aceitar a justificativa que Lampião era “defensor dos pobres”, justiceiro, vítima da injustiça social. Concordo com a escritora Helena Conserva quando ela diz a terra que tem filhos ilustres como Agamenon Magalhães não pode homenagear Lampião. Lampião foi bandido e criminoso. Era temido e nunca amado por todas as classes sociais. E isto ficou provado com os festejos no dia da sua morte.
Dias depois de a Polícia ter cortado as cabeças dos bandidos fuzilados no Angico, Sergipe, passou aqui em Feira de Santana, em 1938, um caminhão pequeno da Polícia transportando soldados que levavam as cabeças de Lampião, Maria Bonita, Azulão e outros; cada cabeça ocupava uma lata de 20 lts (própria de querosene) com uns 10 lts de alcool que conservava a cabeça.
Em um gesto de brutalidade, sadismo e ignorância da época, os soldados pegavam pelos cabelos e levantavam a cabeça degolada e dizia o nome do bandido. E a cada grupo de pessoas que chegava e manifestava o desejo de ver a cabeça de um dos bandidos, a cena era repetida.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Saudades das Velhas Músicas

Há uma tendência nata no ser humano em relacionar determinada música a acontecimentos da época. Hoje, em todo o território brasileiro, quando se ouve a música “Peixe Vivo”, ela traz a lembrança do Presidente Juscelino Kubitschek. Era a sua música popular predileta e todos sabiam. Hoje ela divide com Brasília o símbolo de Juscelino. Quem não relaciona o bolero “Besame mucho” com o escândalo do caso Deputado Bernardo Cabral e a Ministra Zélia Cardoso? E naquela eleição que ACM usava vistosas camisas listradas durante os comícios (era moda) sendo logo criticado por seus adversários com o samba “Sossega Leão” que dizia: ...vestia uma camisa listrada e saía por ai/ Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão/ Sorria quando o povo dizia, sossega leão!
Como me considero saudosista inveterado, tenho na lembrança uma coleção monumental de músicas que estão relacionadas a alguma coisa da minha vida: a primeira música que aprendi a cantar foi uma marchinha carnavalesca (não me recordo o título) que foi considerada maliciosa somente porque dizia “a lua malcriada quando passa/ espia na vidraça/ dos quartos de dormir.../ zombando dos casais enamorados/ quase sempre descuidados/ ela fica sempre a rir !”
Do primeiro carnaval que, ainda menino, participei, ficou arquivado na lembrança aquela marchinha inocente que falava da lendária história do Pierrô e Colombina: “Um Pierrô apaixonado/ que vivia só cantando/ por causa de uma Colombina/ acabou chorando, acabou chorando...”
A minha estréia no salão de danças, aconteceu no baile da Vitória na micareta de 1937 ao som do samba “Cai,Cai” tendo nos braços a bela Lília Cunha. Naquela mesma noite dancei a marcha “Jardineira” , esta mesma que aparece em todos os carnavais ao lado de “Alá-Lá-ô”, “Mascara Negra” “Está chegando a hora” “Pirata da perna de pau”, “Bandeira Branca” “O cordão dos puxa-sacos” “Os carecas” e tantas outras, verdadeiras imortais da Academia Carnavalesca.
Thai!/ eu fiz tudo pra você gostar de mim/ oh! Meu bem não faça assim comigo não / você tem, você tem que me dar seu coração. Esta música era uma excelente declaração de amor para qualquer moça. Bastava trocar o nome de Thai pelo seu nome. As Marias sempre foram beneficiadas com músicas desde as clássicas Aves Maria (de Gounod e Schubert) até a popular “lata d’água na cabeça”, passando pela saudosa Ave Maria do Morro e “Maria” de Ary Barroso: Maria, o teu nome principia / na palma da minha mão...
Hoje recordo com orgulho de ter assistido no Teatro Municipal do Rio de Janeiro o grande tenor Tito Skipa cantando “Santa Luccia”, “Funiculi,Funicula”, vários trechos de La Traviata , outros de Rigoleto, ambas de Verdi. Foram momentos vividos em um mundo de sonho e êxtase.
Aos tangos argentinos como “Mano a Mano” “La Cumparcita”, “Tristeza Marina”, “Percal”, “Uno” , “Adios Amigos” , “Adios Pampa Mia”, “Cristal”, “Nostalgias”, “A Media Luz”, “El Dia Que Me Quieras” e outros que ora me fogem da memória, eu credito aos intervalos que tínhamos entre um comboio e outro nos portos do sul, durante a segunda guerra mundial.
Mas aquelas músicas como Ai Que Saudade da Amélia, Tenho Ciúme de Tudo, Kalú, Cabecinha No Meu Ombro, Alguém Me Disse, Leva Eu Saudade, Naquela Mesa, Leva Meu Samba, Sempre No Meu Coração, Brasa, Atira A Primeira Pedra, Velho Realejo, Caminhemos, Marina, Fica Comigo Esta Noite, Deusa da Minha Rua, Chão de Estrelas, Maria Helena, Renuncia, Nada Alem, têm um sabor diferente para cada pessoa porque elas representam um momento romântico em cada vida. A minha avó guardava um velho disco de cera de carnaúba gravado com a valsa Facinação. Eu guardo na memória a música que retratava a mulher da minha vida: Normalista. E, há 60 anos guardo também aquela Normalista... em nossa casa.

domingo, 31 de outubro de 2010

As Tradicionais Famílias Feirenses

É muito difícil falar das famílias tradicionais de Feira de Santana, até porque o Dicionário Personativo, Histórico, Geográfico e Institucional, de autoria do saudoso Prof. Oscar Damião de Almeida, retrata-as de um modo geral, principalmente aquelas que se destacaram na política ou no mundo financeiro. Mesmo assim, sobram alguns detalhes que gosto de relembrar.
Um exemplo é a família Pitombo de quem conheci os três varões principais: Juventino, o primeiro dentista com formação acadêmica de Feira; Carlos, comerciante estabelecido de secos e molhados do outro lado da esquina do Cine Teatro Santana e Joaquim Pitombo, casado com Julieta da Silva Pitombo, pais de Valdir, Dival, Dete, Diva e Arlindo. Conheci também D. Deodora Teles da Silva, mãe de Julieta que me contou muitas histórias de príncipe encantado.
Da família Carneiro, o nome e a obra do Padre Tertuliano Carneiro anuviou o brilho dos parentes. Seu irmão Cosme Carneiro deixou dois filhos: professores Bernardino e Tertuliano. O primeiro morreu cedo, mas o segundo viajou muito, a cavalo, para exercer a sua profissão de professor no longínquo sertão da época e, posteriormente, estabeleceu-se em Salvador com uma firma de bombas e motores, próximo a São Joaquim, tendo falecido há cerca de três anos na Capital do Estado.
Outra família que teve grande destaque em Feira antiga foi a dos Rubem. Conheci o patriarca Teotônio dos Santos Rubem, comerciante estabelecido na antiga Praça Padre Ovídio, no primeiro quarteirão anterior à esquina da Rua de Aurora. Tinha quatro filhas: Maria,Albertina, Miquinha e Neném, além dos filhos José e Álvaro dos Santos Rubem, sendo este o de maior destaque pois era dono de uma joalheria na Rua Cons. Franco, cuja casa foi a primeira a vender óculos em Feira de Santana. José dos Santos Rubem também era estabelecido com uma loja de artigos religiosos, exclusivamente católicos. De pequena estatura e muito magro,tinha o apelido de “Zeca Belas Perninhas” e ficou mais popular depois da sua briga com D. Hermínia, então censora da Escola Normal.
Tudo começou quando D.Hermínia, conhecida como má pagadora, levou um São Cosme para que Zeca o emoldurasse, ficando certo o preço do serviço e o dia da entrega. Na data aprazada, D. Hermínia veio apanhar o quadro mas disse a Zeca que pagaria no dia seguinte, o que não aconteceu. Meses depois volta D. Hermínia com um Santo Antônio para emoldurar, dizendo pertencer à sua enteada Tezinha. Dias depois voltou para receber a encomenda e avisou que Tezinha pagaria depois. Zeca retomou o quadro e disse: “não tem Tezinha nem Tezão! São Cosme foi mas Santo Antonio não vai não!!!”

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Antigo Campo do Gado

No limiar da década de 30 a Feira Livre e o Campo do Gado eram os dois símbolos maiores da Cidade. Também em torno dos dois giravam os braços da economia e do lazer.
O “campo do gado”, onde se reuniam as boiadas vindas de todas as partes para compra e venda, se situava a partir do atual Cinema Íris até próximo de algumas casas onde hoje é a Queimadinha (de sul a norte). E de leste a oeste ficava entre os fundos da mansão dos Froes da Motta e os primeiros casebres da Boa Viagem,(hoje rua Geminiano Costa) onde começava a “estrada das boiadas” de Feira para Salvador,e onde hoje estão os Colégios Municipal e Agostinho Froes da Motta.
Não havia calçamento porem o pequeno declive do solo e a sua composição arenosa mantinham todo o campo sempre em boas condições de uso. No centro havia uma balança com a seringa e nada mais. Os vaqueiros vinham sempre em número suficiente para “rodear” suas boiadas, mas a falta de currais e a proximidade entre machos e fêmeas acabava por misturar e espalhar boiadas a todo o momento e, não raro, bois fugiam nas mais diversas direções. Também havia um batalhão de vaqueiros amadores verdadeiros Playboys que dispunham de bons cavalos e tempo suficiente para passar as segundas-feiras disputando a derrubada do boi fujão, durante a carreira. Era uma vaquejada improvisada e constante. Lembro-me que o grande campeão da época era Pepêu (das famílias Pinto / Almeida – as mais antigas e respeitadas de Feira) com o seu excelente cavalo “Volta Grande”.
Quando um boi corria em direção a uma ponta-de-rua ou ao mato, sempre perseguido por vaqueiros profissionais e diletantes, tudo se transformava em brincadeira, diversão. Mas quando o boi tomava a direção do centro da cidade, certamente ia parar no meio da feira livre porque o caminho natural era a Avenida Senhor dos Passos. E logo na entrada do largo da Praça, onde se concentrava a feira e o comércio, estava situada a parte de cerâmica onde se vendiam panelas, potes, vasos e outros utensílios de barro muito usados então. Ali o desastre era completo: o povo abandonava tudo e buscava abrigo no mercado e nas casas comerciais, as quais logo fechavam as portas, quando era possível. Além dos prejuízos financeiros, havia a tragédia oriunda do pânico do povo que se atropelava, deixando um saldo de feridos e algumas vezes mortos.
No fim da década de 30 se construiu currais de arame nas proximidades da Boa Viagem, onde atualmente se encontra o Museu de Arte Contemporânea e o Colégio Municipal. Posteriormente substituíram os currais de arame por currais de madeira, no mesmo local. Acabou assim a tragédia nas ruas e Feira, mas também morreu a poesia daqueles vaqueiros, Play-Boys da época.
O Prefeito Carlos Valadares promoveu o desenvolvimento residencial naquele local e o progresso levou o Campo do Gado para o extremo leste da Queimadinha, cujo local ficou conhecido pela aberração gramatical de Campo do Gado Velho.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

José Joaquim Lopes de Brito - Ligeira Biografia

Com este nome foi inaugurado no dia 21 de maio de 2008 o primeiro viaduto de Feira de Santana. Sendo uma obra pioneira na Cidade e de proporções elevadas, no perímetro central, não poderia ter outro nome mais notável senão daquele que foi o primeiro Engenheiro Civil do Município. Parabéns, Feira, pela justíssima homenagem.
O casal Pedro Brito Sobrinho e Amélia Ribeiro Lopes de Brito, tiveram três filhos: Margarida Brito de Oliveira, Lourdes Brito Portugal e José Joaquim Lopes de Brito. As filhas formaram-se professoras e casaram-se, respectivamente com Antonio Faustino de Oliveira e Manoel (Maninho) Portugal. O Filho nascido no dia 22 de maio de 1915, fez o antigo curso primário, segundo a Professora Lélia Fernandes, com a Professora Ubaldina Régis. Em Salvador fez o segundo e o terceiro graus, este em Engenharia Civil, o qual conclui no final do ano de 1938.
Estudante na escola da Professora Margarida Brito, lembro-me da visita que fez à sua irmã, já formado, oportunidade em que ela disse – “Agora você deixou de ser o nosso ZECABRITO para ser o Dr. Brito”. Zé cabrito era um apelido usado pelos familiares e amigos íntimos nos tempos da infância, dado o seu espírito irrequieto e sapeca. Durante o ano de 1939 dedicou-se ao magistério em Salvador: Foi professor de matemática nos Colégios Ipiranga, 2 de Julho e Ginásio da Bahia. Também foi em Salvador que recebeu grandes honrarias: Diploma Honra ao Mérito e Medalha de Prata, concedidos pela Federação Nacional dos Engenheiros, diplomas do Grupo de Ação Integrada de Salvador e outras.
Em 2 de janeiro de 1940, já conhecida a sua capacidade profissional, foi nomeado Engenheiro Civil do Município pelo Prefeito Heráclito Dias de Carvalho. Foi o primeiro Engenheiro a ser nomeado pela Prefeitura de Feira de Santana, e o seu grande desafio foi fazer a primeira planta da Cidade. Posteriormente programou o futuro crescimento da Cidade, vez que o Prefeito Carlos Valadares mandou dividir em ruas e lotes o primeiro campo do gado, cujos terrenos foram doados a quem quisesse construir em curto prazo. Novas ruas foram abertas, e o que se vê hoje do bonito traçado de Feira de Santana deve-se ao trabalho profissional do Engenheiro Civil José Joaquim Lopes de Brito, conhecido por todos como Dr. Brito.
É incalculável o número de construções que administrou tecnicamente, não só em obras públicas como particulares. Não podemos dar nomes às suas obras para não incorrer no pérfido crime da omissão. Mas podemos destacar, alem das plantas da Cidade, da abertura da atual Avenida Getúlio Vargas que foi traçada na melhor parte da planície, em direção ao leste, a qual tem hoje muito mais imóveis do que existiam na Cidade à época da sua formatura. A nossa Biblioteca Municipal é outra lembrança que nos legou, entre centenas de outras obras. Até fora do município, em Alagoinhas, planejou e administrou tecnicamente a construção do Estádio Carneirão.
Não podemos esquecer que apesar do seu desgastante trabalho profissional de engenharia, o Dr. Brito nunca deixou de lecionar matemática no Colégio Santanópolis e na Escola Normal de Feira de Santana, que posteriormente foi transformada em Instituto de Educação Gastão Guimarães. Aposentou-se do magistério depois de 40 anos de bons serviços prestados à educação e à sua terra natal.
Ainda como Engenheiro Municipal foi Diretor do Serviço Autônomo Municipal de Águas e em 1967 foi nomeado Secretário de Obras Públicas, deixando, como sempre, a sua indelével marca de competência, trabalho e honestidade. Além dos feitos profissionais, era também um apaixonado por sua terra, a ponto de fazer doações de terrenos de sua propriedade para a construção da Escola Estadual João Durval Carneiro e a sede da OPSA – Obra Promocional de Santana.
A sua vida social foi das mais ativas em Feira de Santana. Boêmio e assíduo freqüentador da “noite” feirense, comparecia a todos os clubes, desde a “25 de Março”, Tênis Clube e Clube de Campo Cajueiro (sendo sócio e fundador dos dois últimos), além das festas que a sociedade feirense sempre organizava. Quando não havia festa, ele próprio fazia uma com seus amigos que formavam um verdadeiro “clube” de boêmios. É oportuno lembrar que esse seu gosto e prática da boemia, jamais interferiram ou misturaram-se à sua vida profissional.
Casado ainda muito jovem com a professora Ivone, tiveram três filhos: Roberto, Lúcia e Lívia. Desquitado, o Dr. Brito voltou a casar-se com a Doutora Lindaura, gerando mais três filhos: Ana Tereza Cynthia e Pedro. Pela terceira e última vez, casou-se com Regina, com a qual teve somente um filho: José Joaquim Lopes de Brito Filho. São, portanto, sete filhos herdeiros de um nome impoluto que engrandece toda descendência.
Em reconhecimento ao seu valor profissional e moral, Feira o homenageou empregando o seu nome ao Conjunto Residencial J.J. Lopes de Brito, ainda quando ele era Engenheiro atuante.
No dia 25 de fevereiro de 2007, já viúvo de Regina, José Joaquim Lopes de Brito, aos quase 92 anos de vida, faleceu e foi sepultado no mesmo berço onde nasceu: a querida Feira de Santana. Deixou um grande número de obras para perpetuar o seu nome, mas, acima de tudo, deixou uma imorredoura saudade no coração de todos aqueles que privaram da sua amizade.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A política na Feira de Santana do pós-guerra

Em 1945, após a rendição dos países do eixo, os militares brasileiros depuseram o Presidente Getúlio Vargas, Ditador há 15 anos. Era o Brasil se democratizando. Afinal havia vencido uma guerra em nome da democracia e não seria coerente continuar com um regime antidemocrático.
Getúlio voltou para as suas fazendas no Rio Grande do Sul e os políticos cuidaram de organizar os partidos. Criaram a UDN (União Democrática Nacional), o PSD (Partido Social Democrático), o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e o PCB (Partido Comunista Brasileiro) além de outros menores. Os dois primeiros eram partidos conservadores, o PTB procurava imitar o trabalhismo britânico, mas no fundo era um partido com fortes bases no populismo, enquanto o Partido Comunista era da estrema esquerda. Foram candidatos o Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), Eurico Gaspar Dutra (PSD/PTB) e Iedo Fiúza (PCB).
Faziam 15 que houvera a última eleição, mesmo assim “a bico de pena”, ou seja, com o voto declarado. Essa seria uma eleição com voto secreto e com total liberdade, como devia ser em uma democracia. E foi liberdade até demais. O PTB tinha dois grandes líderes: Hamilton Cohim (Foi Deputado) e Claudemiro Campos Suzarte ( foi Vereador). Ambos bons oradores e altamente politizados, com a bandeira do getulismo, arrastavam enorme multidão em seus comícios, embora a maioria fosse analfabeta e naquela não se premiava a ignorância; analfabeto não votava. Não votava mais podia subir no palanque e discursar.
Foi assim que alguns discursos entraram para o anedotário político de Feira. Existia aqui um petebista conhecido como Mário Ferro Velho que onde visse um aglomerado de pessoas, mesmo que fosse um enterro, ele subia em uma cadeira e dava o seu recado. Conta-se que um candidato, depois de dizer que Dr. Eduardo Froes da Motta era inimigo dos pobres, nascido em berço de ouro na Mansão da Praça Froes da Motta, perguntou: ele é o que? Rico – responderam todos. E eu que nasci ali, na rua do meio, (antiga rua das meretrizes) sou que ? Filho da Pu.. respondeu a molecada. Outro, em um daqueles povoados que faziam parte do Município, também para demonstrar que ia defender os pobres porque ele era igualmente pobre, contou que em sua casa não tinha mesa nem cadeiras, sua cama era de varas, seu remédio era chá de folhas, e arrematou dizendo que agora os ricos tinham inventado até colchão de molas para dormir no macio, enquanto os pobres iam continuar dormindo em cama de vara dura.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nota de Pesar

É com muita tristeza que comunico o falecimento de Francisco Gomes, atual presidente da Associação dos Ex-Combatentes, Seccional Feira de Santana.
Francisco combateu vestindo a farda do Exército, enquanto eu defendia o país estando lotado na Marinha, nos conhecemos algum tempo depois do fim da Guerra, já em Feira de Santana e cultivamos uma convivência pautada no respeito e na admiração.
Por triste coincidência, o último post que eu tinha feito neste blog foi justamente clamando pela construção do Museu dos Ex-Combatentes em Feira. Francisco é mais um dos heróis da segunda guerra, e também entusiasta da idéia, que se vai sem ver concretizado o nosso grande sonho.
Descanse em paz, amigo!

Antônio do Lajedinho

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Pela construção do museu dos ex-combatentes em Feira

Em janeiro de 1942 o Brasil, em cumprimento de um tratado dos países da América, rompe relações diplomáticas com os países do eixo, Alemanha, Itália e Japão sem, entretanto, declarar guerra.
No dia 15 de fevereiro de 42, sem qualquer declaração de guerra por qualquer das partes, Brasil ou Alemanha, o submarino alemão de prefixo U-452 ataca, torpedeia e afunda o navio mercante “Buarque”. No dia 18 de fevereiro torpedearam o navio “Olinda”, aos 25 do mesmo mês foi a vez do “Cabedelo” e até o mês de agosto de 1942, a nossa Pátria foi agredida, massacrada e humilhada com a perda de 22 navios, em águas brasileiras, ceifando 914 vidas, inclusive de mulheres e crianças que viajavam nos navios.
O Brasil estava de luto e o seu povo chorava revoltado. Estava ameaçada a nossa soberania e os estudantes, em todos os rincões do País, acompanhados de intelectuais, comerciantes e o povo em geral, vieram para as ruas, em passeatas diárias pedir: GUERRA!...GUERRA!...GUERRA! Era a explosão da dor e da revolta que clamava por um justo revide à brutalidade dos agressores. E, a 22 de agosto de 42, o Presidente Getulio Vargas, pressionado pelo povo, declarou guerra a Alemanha, Itália e Japão.
Foi muito difícil para as Forças Armadas, principalmente a Marinha de Guerra e a Aeronáutica, combater o inimigo no vasto Oceano Atlântico com velhos navios e pequenos aviões de passageiros adaptados para o patrulhamento e comboio de navios mercantes. Mas conseguiram afundar alguns submarinos e afugentar outros que atacavam navios indefesos.Em fevereiro de 44, o “The New York Times” anuncia o afundamento de 18 submarinos em águas brasileiras por forças aeronavais brasileiras e americanas.
O Exército preparou 25.000 homens e no dia 16 de julho de 1944 a bandeira brasileira tremula no solo Italiano. Era o começo de uma epopéia que se estendeu por Massarosa, Monte Canunale, Camaiore, Monte Prano, Formacci, Lama di Sotto e dezenas de localidades então ocupadas pelo exército alemão, culminando com a espetacular batalha de Monte Castelo.
Em 8 de maio de 1945, os alemães rendem-se incondicionalmente.
Os soldados das três armas brasileiras, Exército, Marinha e Aeronáutica lavaram com seu sangue a honra da Pátria ultrajada. O povo voltou às ruas desta feita para aplaudir o feito dos militares brasileiros.
58 anos depois, os velhos combatentes de então lutam hoje pelo mínimo da memória daqueles que tombaram na defesa da Pátria: apenas um Museu da 2ª Guerra. Eles próprios construíram o prédio e mandaram fazer um projeto para instalação do Museu e encaminharam à Pirelle do Brasil ( em Feira de Santana) na esperança do seu patrocínio. A resposta está demorando e os Ex-combatentes vivos já passaram do 80 anos. Será que algum sobreviverá para ver o Museu ?
O Coronel Álvaro Márcio Moreira Santos, Comandante do 35º BI recentemente se utilizou de todo o seu prestígio para ver aprovado o projeto. Restou-lhe pedir às demais autoridades feirenses para intervirem pelos Ex-combatentes, como eles intervieram quando a Pátria precisou. Por favor, Senhores !!!

domingo, 12 de setembro de 2010

O Grande Estádio da Marechal Deodoro

A história do futebol em Feira de Santana ainda não foi contada, sequer pesquisada, ainda que 90% do povo daqui goste, e muito, desse esporte.
Embora não morra de amores por futebol, a ponto de fazer algum tipo de pesquisa, tenho preso às minhas lembranças os tempos da infância (quando eu jogava com bolas de pano) que os jogos eram realizados no campo principal da Cidade que se localizava onde está o prédio da antiga Usina de Algodão. Não me lembro os nomes dos times mas recordo que as maiores atrações eram os goleiros Cristo e Ioiô. Tuta, ainda vivo e forte, irmão de Cristo, era o melhor atacante. As torcidas eram pequenas, limitadas aos parentes e amigos dos jogadores. Era o mesmo futebol que ainda se vê nos lugarejos do interior na atualidade.
Mas nem sempre foi assim. O futebol em Feira teve os seus dias de glória, com todo o apoio da sociedade local, e um Estádio de primeira categoria, todo murado, com bilheteria e portões de entrada e saída, e uma grande arquibancada de madeira em bom acabamento. O seu nome era Estádio Leolindo Ramos e ocupava todo o último quarteirão da Rua Manoel Vitorino (hoje Marechal Deodoro). No norte limitava com o muro da residência de Tertuliano Almeida (hoje Solar Santana) formando ali o “Beco do Amor”. Ao sul com o “Beco do Asilo” (hoje Av. Mons. Mário Pessoa). Ao leste com a Av. Senhor dos Passos e a oeste com a Rua Mal. Deodoro. Como os jogos deviam ser realizados na parte da tarde, as arquibancadas foram construídas no lado oeste, portanto protegidas do sol.
Quando conheci o Estádio, em 34 ou 35, já estava abandonado, tomado pelo mato, porem as arquibancadas ainda estavam em bom estado, mesmo sem qualquer tipo de conservação. O porquê do abandono do Estádio eu nunca soube ao certo. Ouvi estórias de vários motivos, quase sempre envoltos de fantasia porem ligados à morte em campo de um jogador, vítima de uma pancada do seu irmão e adversário de time. Mas nunca pude fazer uma pesquisa. Certa feita conversei com o meu amigo Alberto Alves Boaventura a respeito e ele me disse que estava tentando coletar dados para uma crônica. Pouco tempo depois faleceu.
Espero que esta crônica sirva de provocação aos amantes da história do Esporte em Feira de Santana e os leve a uma pesquisa concreta sobre o Primeiro Estádio aqui construído e o porquê do seu declínio. Fica o desafio.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

OS “GALINHAS VERDES” - Integralistas em Feira de Santana

Já tive a oportunidade de dizer que escrevo crônicas sobre acontecimentos em Feira na década de 30, sem qualquer pretensão de fazer história. Não sou estudioso ou pesquisador dos assuntos. Apenas testemunha ocular do que conto e quase sempre estou esquecendo nomes, o que me obriga a recorrer às privilegiadas memórias de amigos como Niá Guimarães e Renato Motta.
Hoje estive recordando os idos de 32 a 37 quando Plínio Salgado e outros políticos criaram a “Ação Integralista Brasileira”, uma versão do Nazismo alemão e do Fascismo Italiano, com o apoio do Presidente Vargas que não era muito chegado aos Comunistas no outro extremo político.
Aqui em Feira o Dr. Joventino Pitombo , Sílio Soledade e outras pessoas de destaque assumiram a liderança e começaram a organizar o partido: inscrição dos adeptos com ficha completa, aquisição de farda (sapato e gravata pretos, calça branca e camisa verde com uma insígnia (um E ao contrário) no braço a exemplo dos Nazistas).
Durante os fins de semana havia treinamento de “Ordem Unida” onde aprendiam marchar, fazer manobras e principalmente a fazer a saudação – braço direito em horizontal para frente, mão espalmada voltada para baixo e a saudação (em voz alta): ANAUÊ PELO BRASIL!!!
Aos domingos promoviam festas que acabavam com desfiles e “anauês”. Nos feriados era grande a disputa por melhor colocação e destaque no cortejo. Deles havia os que usavam a farda durante todos os dias da semana pelo simples orgulho de ser Integralista. Mas os adversários políticos logo llhes deram o famoso apelido de “Galinhas Verdes”. Os mais ignorantes estavam sempre dispostos a responder com impropérios quando provocados pelo apelido.
Em 1937 Getúlio Vargas, que os tinha como aliados, passou-lhes uma “rasteira”. De posse de todos os fichários com os nomes e endereços de todos os Integralistas do Brasil, com uma ação de longo alcance e extrema rapidez, em uma só noite mandou fechar todas as sedes e prender, em suas residências, todos os Integralistas fichados.
Aqui em Feira muitos carros ocuparam a Cidade, silenciosamente, a partir das 22 horas e às 04 da manhã estavam todos presos.
À medida que efetuavam as prisões a Cidade ia acordando e às 4 horas as ruas estavam tão movimentadas como se fosse dia de festa, com uma tragicomédia pública: famílias em desespero, muita incerteza do destino dos presos, muitos boatos e o bêbado inveterado Arthur Bostoque, que fora rejeitado pelos Integralistas, gritando na frente da Cadeia: “Venham ver, as galinhas verdes agora estão no poleiro... viraram periquitos verdes e estão na gaiola...”
Ao meio dia meu pai deu-nos as explicações daquele movimento político que ia da “Intentona Comunista” aos partidos da Alemanha e Itália. A uma pergunta de um dos filhos ele respondeu: Integralismo, Fascismo, Nazismo, Comunismo, tudo que termina em ISMO, é a mesma porcaria. A minha irmã que se preparava para a Primeira Comunhão, inocentemente, perguntou: Catecismo também ?

domingo, 5 de setembro de 2010

Corisco, o diabo louro

Em 1938 a polícia matou os principais cangaceiros do bando de Lampião, inclusive ele e Maria Bonita. Posteriormente prenderam outros bandidos, alguns se entregaram e outros fugiram.
Estava com uma parte do bando em outra localidade o cangaceiro Corisco, um dos poucos bandidos realmente valente, conhecido e apelidado pelas volantes policiais de “Diabo Louro”. Tendo servido ao Exército, conhecia muito bem o manejo de armas, especialmente o fuzil, com o qual era excelente atirador. Logo que o cangaceiro soube da morte do seu chefe, Lampião, procurou investigar quais foram os traidores e dias depois voltou a Piranhas, Alagoas, onde matou aqueles que ele julgou traidor. Dali fugiu, escondendo-se nos lugares que conhecia e os sabia seguros.
Nos fins do ano de 39 Corisco decidiu abandonar o cangaço e traçou um plano para fugir, via Bom Jesus da Lapa. Assim com roupas simples e chapéu de romeiro, cabelo cortado e usando óculos, Corisco, com Dada e um casal de cangaceiro também vestidos à romeiro, partiram com destino ao Estado de Minas Gerais em seu objetivo. No dia 24 de maio chegavam em Barra do Mendes, Bahia, e, distantes seis quilômetros da Cidade, na Fazenda Pulgas, onde encostaram e pediram arranchamento, sendo atendidos pelo velho José Pacheco e sua mulher Virgilina Rosa de Souza, esta ainda viva com 94 anos. Naquele dia havia falecido D. Eliogéria, moradora da fazenda. Após uma noite de velório na fazenda, no dia seguinte todos os moradores da região vieram acompanhando o enterro até a Cidade de Barra do Mendes.
Depois do sepultamento todos se dirigiram para um boteco perto do cemitério e ali começaram a beber. Um rapaz da cidade, filho de família abastada e acostumado a tomar liberdade com as roceiras do lugar, vendo Dada, bonita e com o corpo bem feito, logo se aproximou, baixou a mão e deu um beliscão na bunda da mulher que ele nem conhecia. A mulher (Dada) lhe dirigiu um olhar de fúria, mas apenas afastou-se para colocar-se ao lado do marido, Corisco, sem nada dizer a ele. Afinal não podiam mostrar suas garras. Ao regressarem do cemitério, todos os cangaceiros se recolheram aos cômodos da casa de farinha, onde estavam arranchados. Nesse momento, chegou o tenente José Rufino com um pequeno caminhão cheio de soldados bem armados. Ali metralharam Corisco e Dada, enquanto o outro cangaceiro conseguiu fugir. Corisco e Dada, ainda vivos foram levados no veículo.
A notícia logo se espalhou e os companheiros do rapaz que dera um beliscão logo foram dizer a ele que a mulher que ele beliscara era Dada, mulher de Corisco. Sem procurar notícias da morte ou não de Corisco, o rapaz fez imediatamente suas malas e partiu para São Paulo, só voltando muitos anos depois.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Hino a Feira

Um dos maiores patrimônios culturais da nossa Feira de Santana é o seu Hino, safra da cultura ímpar de Georgina de Mello Lima Erismann. Cantado hoje em todas as cerimônias cívicas e na maioria das escolas publicas e particulares, o hino popularizou-se e engajou-se no sentimento de quantos amam esta terra que “ao estranho sempre domina”.
Não vamos falar da biografia de Georgina Erismann, pois todos a conhecemos via historiadores ou através de palestras proferidas pelo professor Carlos Melo,. um dos maiores biógrafos daquela feirense, e hoje como um dos diretores do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana, certamente irá carrear para aquela casa da imortalidade os frutos da sua vasta pesquisa.
Vamos falar um pouco dos versos do Hino à Feira. Segundo o mestre Teófilo Braga, ...”no desenvolvimento das línguas pela expressão oral, toda a significação implícita na palavra toma o seu relevo e espírito nos sons, entonações e acentos, estabelecendo, pelos vocábulos, a ritmopéia da língua, na cadência indeterminada do discurso oratório e especialmente na versificação, cuja beleza constitui a elocução poética” . Na letra do Hino à Feira, Georgina Erismann, através de uma metrificação perfeita, mostra o relevo de espírito dos sons, entonações e acentos, dando o ritmo que tanto nos encanta em sua poesia.
Nos versos do Hino à Feira, a poetisa usa uma das mais belas formas de metrificação, a endecha, onde os acentos silábicos caem, obrigatoriamente, nas terceira, sexta e nona sílabas poéticas, dando uma cadência monumental em cada verso. No primeiro verso, que é também usado como estribilho, Georgina criou um decassílabo da forma italiana com todo o rigor que a métrica exige e com rimas entrelaçadas, sem necessidade da rima rica que muitas vezes sacrifica a beleza do verso.
Também é de grande excelência a metáfora que ela insere nos terceiro e quarto versos da quarta estrofe “fiandeira que vive a fiar, a toalha de luz do sol posto”...
Embora as suas poesias sejam profundamente líricas, no Hino à Feira encontramos uma épica entretenida da Escola Francesa, principalmente porque perde o caráter narrativo para aparecer como expressão do sentimento.
O Hino à Feira é o maior tesouro, dentre os muitos que a Princesa tem, doado por sua ilustre filha Georgina de Mello Lima Erismann.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Costumes e Estórias da Vovó

Tive a felicidade de ser bisneto até 1948, quando, às vésperas do seu centenário de nascimento, morreu a minha bisavó Antônia Freitas da Silva. Memória privilegiada, gostava de contar aos bisnetos todas as grandes festas da sua época, o progresso da Vila, sua elevação à Cidade, as festas da padroeira e tudo mais que aconteceu no século XIX e o primeiro quartel do século XX. Até mesmo coisas que aconteceram, como o enforcamento de Lucas, ela nos transmitia o que sua mãe lhe contara, inclusive a vinda de músicos da vizinhança para tocarem na festa do enforcamento e o episódio do carrasco que pulou sobre as costas de Lucas para apressar sua morte, que estava demorando de acontecer.
Falava muito sobre o Padre Ovídio, seu trabalho em criar o orfanato “Asilo N. Sra.. de Lourdes”, fundação de filarmônicas, Montepio dos Artistas e muitas obras de caridade. Falava sobre Antônio Conselheiro e dos feirenses que foram para a famosa Guerra de Canudos.
Mas a lembrança maior daquela velhinha de cabelos prateados e largo sorriso é mesmo das estórias que contava na minha infância. Recordo-me, como se fora ontem, daquele provérbio que ela usava e abusava: “quem bem fizer, pra si é”; e quando perguntávamos o porquê daquela máxima, ela nos contava a estória de uma velha muito pobre e sem forças para trabalhar que morava no meio de uma mata e que, uma vez por semana, aos sábados, ia esmolar na Corte. E a cada pessoa que lhe desse uma esmola, o seu agradecimento era o mesmo: “quem bem fizer, pra si é”. Também para a Rainha dizia a mesma coisa, e esta, sem entender o conceito do agradecimento e já revoltada com aquela sentença, resolveu se ver livre da velha e naquele sábado preparou um pão com manteiga e veneno e aguardou o pedido de esmola, doando à velhinha o macabro presente. Como sempre, a pedinte recebeu a esmola e repetiu a máxima: “quem bem fizer, pra si é”. No domingo, o Príncipe, filho único da Rainha, saiu para uma caçada e perdeu-se no mato. Já era noite quando, acidentalmente, encontrou uma pequena cabana, a morada da esmoler, onde foi bem recebido e orientado sobre o caminho da Corte. Como estava muito faminto, perguntou à velha se não tinha alguma coisa para comer. A velha lembrou-se do pão vindo das mãos da Rainha e entregou-lhe dizendo: foi a sua mãe que me deu ontem. Assim o pão lhe pareceu melhor e logo foi comendo, morrendo instantaneamente. Com a chegada da Rainha junto ao corpo, logo reconheceu o pão que usara para matar a velha e sentiu bem profunda a máxima – quem bem fizer, pra si é; quem mal fizer...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Av. Senhor dos Passos de ontem..

Ela bem que tentou resistir às intempéries do passar do tempo, mas não conseguiu. Fica a gostosa lembrança da Av. Senhor dos Passos do meu tempo.

domingo, 8 de agosto de 2010

Professor Antônio Garcia

Dedicado aos amigos do blog Santanópolis: santanopolis.zip.net

Mesmo entre intelectuais, o nome do Prof. Antônio Augusto da Silva Garcia, é pouco conhecido, ligado apenas à Folha do Norte ou ainda ao nome da Micareta que ele defendeu em lugar de Micareme como queriam outros.
Mas o Professor Antônio Garcia, como ficara conhecido, nascido em 13 de junho de 1870, foi muito mais que um grande etimologista e gramático; foi um dos homens mais cultos da época. Apesar da origem pobre, estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, fez os primeiros anos da faculdade de medicina, sua grande vocação, mas por absoluta falta de recursos teve que se contentar com o magistério, profissão que exerceu em Salvador, Ilhéus e Feira de Santana. Aqui foi professor dos maiores e melhores estabelecimentos da época: Escola Normal e Ginásio Santanópolis.
Fundador das revistas “Renascença” e “A Luva” ao lado de Severo dos Anjos, revelou-se no jornalismo o polemista competente e o poeta clássico. Em Feira de Santana fez parte do primeiro quadro de professores da Escola Normal. Não foi só por vocação, mas por absoluta falta de recursos teve que se contentar com o magistério, profissão que exerceu em Salvador, Ilhéus e Feira de Santana. Aqui foi professor dos maiores e melhores estabelecimentos da época: Escola Normal e Ginásio Santanópolis.
Fundador das revistas “Renascença” e “A Luva” ao lado de Severo dos Anjos, revelou-se no jornalismo o polemista competente e o poeta clássico. Em Feira de Santana fez parte do primeiro quadro de professores da Escola Normal Rural de Feira de Santana e no Ginásio Santanópolis ensinou até 1943, poucos meses antes do seu falecimento em 12 de janeiro de 1944. Casado duas vezes, do primeiro matrimônio deixou 4 filhos. Do segundo, nenhum filho.
A grande virtude daquele mestre, em todos os setores que atuou, foi a humildade e a modéstia. Na Folha do Norte, onde foi o Redator enquanto vivo, raramente publicava uma das suas belas poesias. As polêmicas culturais que sustentava, fazia em nome do jornal. A Aloísio Resende, o querido Zinho Faúla, ele ensinou desde a métrica e a rima das poesias até os segredos do rítimo e do adjetivamento e qualificação de substantivos. Aloísio foi um diamante bruto que o Mestre Antônio Garcia lapidou e a Folha do Norte abriu espaço para a sua projeção.
Um dia os grandes pesquisadores da História da Feira como Adilson Simas colocarão o nome do grande Mestre Antônio Garcia no lugar de destaque que bem cabe na história da cultura feirense.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Lucas da Feira - Um bandido como tantos...

Muito se tem escrito sobre Lucas da Feira, um bandido que entrou na história do crime porque era escravo e os escravos costumavam fugir para os quilombos, nunca para roubar, e também eram raros os latrocínios, principalmente em Cidades do Interior, e Lucas foi um latrocida cruel, em uma época plena de paz. O seu enforcamento contribuiu definitivamente para sua entrada nos anais da história. Afinal foi o primeiro latrocida a ser condenado, em Feira de Santana, a morte, por enforcamento.
Ainda menino, oitenta anos após seu enforcamento, minha bisavó contava a história de Lucas e ajuntava o seu famoso ABC, feito por algum Cordelista da época, cujas estrofes das duas primeiras letras nunca me esqueci, porque era com elas que eu, quando criança, argumentava o nascimento de Lucas em São Gonçalo e não em Feira: Adeus Saco do Limão/ Terra onde nasci/ Vou preso para a Bahia/ Levo Saudades de ti (b) Bem me diziam meus sócios/ Que eu mudasse de condição/ Que Cazumbá, por dinheiro/ Fazia pintura do cão. Saco do Limão era uma fazenda pertencente a São Gonçalo dos Campos.
Mas o motivo que me faz relembrar a história de Lucas Evangelista dos Santos, o Lucas da Feira, é a versão de pessoas que desconhecem o processo que deu origem às investigações dos crimes cometidos por Lucas. Alguns, encantados com filmes americanos de Rob Hood, chegam ao absurdo de afirmar que Lucas roubava dos ricos para dar aos pobres, que lutava pela causa da abolição, que era o defensor dos escravos, que era socialista, que fora muito maltratado pelos seus senhores (o último foi um padre) e um monte de qualidades boas que ele nunca teve. No julgamento de Lucas o Conselho de Sentença reconheceu entre outros crimes como estupro, assalto a mão armada, etc., três latrocínios. Não me recordo dos nomes das vítimas, mas lembro-me que um era comerciante, outro lavrador e o terceiro esqueci. Nos três casos ele matou as vítimas para roubar. Existiram outras mortes e muitos roubos de pessoas pobres e ignorantes que nunca foram relatados por medo de represália.
Nas diversas bibliotecas de Feira deve haver o livro “Lucas da Feira” de autoria do Dr. Inocêncio Marques, onde o autor apresenta todas as fases dos Inquéritos Policial e Judicial, até Final Sentença, quando foi condenado ao enforcamento em praça pública. A sentença foi cumprida em 1849 e o local escolhido foi entre duas seculares gameleiras que existiam onde hoje está o jardim da Praça do Nordestino. A Cruz, que marcava o local da sua morte, ficava em frente do local onde hoje está a Casa do Pão. Ao enforcamento compareceu todo o povo de Feira e, segundo ouvi dos mais velhos, compareceu, ao lado das autoridades, a Banda de Música. Sem dúvida para dar o tom solene do ato.
Quem quiser fazer apologia ao crime, tenha-o como herói, defensor dos pobres, abolicionista, socialista etc.. Para mim, é o que foi: assaltante, estuprador, ladrão, criminoso bárbaro e latrocida perverso.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Acontecimentos de hoje, folclore de amanhã

Quando a gente convive por alguns anos com o pessoal da roça, vê e ouve muitas coisas que algum dia estará fazendo parte do folclore brasileiro.
Vivi quinze anos em uma fazenda, junto ao povoado do Spínola que contava com uns trezentos habitantes. Nesse período vi muita coisa interessante, e algumas vezes tive que intervir.
Lembro-me quando tivemos aquela epidemia de cólera que atingiu toda a Bahia, o Ministério da Saúde investiu muito em publicidade sobre o tratamento de água para beber pois era a principal via transmissão da doença. Então conversei com o pessoal e encontrei uma casa que tinha um rádio e já estava prevenida contra a doença e me afirmou a água que a gente bebe eu frevo e frito. Frevo eu entendi que ela fervia mais fritar água? ... Então perguntei como ela, D.Ni, fritava a água, e ela prontamente me respondeu apontando para um filtro de cerâmica novo: aqui é o frito.
O homem mais velho do povoado, Salviano, contava tudo sobre a história do Coronel Horácio de Matos, e contava com orgulho como o Coronel deu uma surra no seu pai, expulsou-o de casa e foi morar por algum tempo com a sua mãe. Sabia de tudo que se passou nos últimos 80 anos, inclusive conhecera a mãe do Coronel Antonio de Souza Benta e o local onde residiam, na Fazenda Laranjeira onde ainda existe o alicerce da casa, daquele que foi o mais valente coronel de Morro do Chapéu.
Residia, no povoado da Canabrava, 3 quilômetros distantes do Spínola, um fazendeiro tão mesquinho que no dia que matava uma preá, mandava a mulher botar no fogo para cozer um quarto da minúscula caça para o almoço.
Um dia chegou ele em minha casa para pedir-me o favor de descontar no salário de um trabalhador meu, o valor de uma semana de trabalho. Impedido por lei de tal procedimento, mandei chamar o trabalhador Miguel, acusado do calote, e este me relatou que realmente tomara o dinheiro de uma semana de trabalho, na época, para o seu casamento, realizado 40 anos atrás, e desde então o homem lhe cobrava porem ele não tinha condições de pagar e não iria pagar. O velho credor ainda procurou a polícia e o delegado informou que mesmo que ele provasse o débito este já estaria prescrito
Quem viaja para Ipirá, na entrada da rua tem uma boate com letreiros em destaque: BOATE DIA E NOITE. Não sei como funciona, mas lá está o convite.
Já que estamos falando de coisas para o folclore, vale lembrar o anuncio de uma barbearia em Ibititá, que até hoje deve estar na margem da estrada: BARBEARIA UNISSEX.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A Visita de Castelo Branco a Feira de Santana


Visita do Marechal Castelo Branco a Feira de Santana. Acervo do autor.

domingo, 23 de maio de 2010

Maio - Mês dos Heróis... Esquecidos

O mês de maio, para nós brasileiros e particularmente baianos, tem uma enorme bagagem de fatos históricos e heróicos, guardados pela tradição do silêncio e serena indiferença dos poderes constituídos...

No dia 08 de maio passado, comemorou-se os 63 anos da Vitória da 2ª Guerra Mundial em quase todos os paises da Europa, sendo, em alguns, dia feriado. No Brasil, que tanto serviço prestou à democracia, não só lutando por mar, terra e ar, mas, acima de tudo, produzindo alimentos e borracha para os paises do velho mundo, as comemorações foram apenas simbólicas, (exceto no Rio de Janeiro) tendo a mídia ignorado a data.

Também no dia 20 de maio de 1917, o torpedeamento do navio mercante brasileiro Tijuca, por um submarino alemão, foi a última agressão alemã ao Brasil neutro, e o estopim para que o Governo declarasse guerra ao Império Otomano e a Alemanha. Mandando uma dezena de navios de Guerra, a aviação naval, e médicos do Exército, o Brasil combateu bravamente, afundando submarinos e navios inimigos, regressando vitorioso em 1919. Como na segunda guerra, foram milhares de brasileiros mortos e...Esquecidos.

Considerando-se que a Santa Quitéria é comemorada no dia 22 de maio, e conhecendo-se os costumes do século XVIII, quando os nomes dos filhos eram dados pelo dia do santo, presume-se que Maria Quitéria de Jesus tenha nascido em 22 de maio de 1792, que alem da data comemorava-se, e comemora-se até hoje, o mês de Maria; daí a junção dos dois nomes: Maria Quitéria.

A sua história e o seu heroísmo é muito conhecida na Bahia, sua terra natal e palco da verdadeira Independência do Brasil. No resto do Brasil o “2 de julho” nunca é lembrado, como esquecidos serão os heróis e heroínas baianas como Maria Felipa e tantos outros.

Foi no dia 20 de maio de 1880, na cidade do Rio de Janeiro, que faleceu mais uma heroína baiana Ana Justina Ferreira Néri. Heroína da Guerra do Paraguai e a primeira enfermeira a incorporar-se às Forças Armadas, acompanhando seus filhos, oficiais do Exército Brasileiro, e os seus irmãos tenentes-coronéis Manoel Jerônimo e Joaquim Maurício Ferreira. Naquela guerra ela perdeu um filho e um sobrinho. O Brasil comemora o dia do enfermeiro em maio, porem no dia 12, data que homenageia a enfermeira inglesa Florence Nightingale. Felizmente ainda comemoram até o dia 20, para não esquecer completamente a baiana Ana Néri que tem muito mais heroísmo que a inglesa.

Segundo o Tem.Cel. PM R/R Gildásio Lemos Brito(A Polícia Militar da Bahia na História do Brasil Parte II), “no dia 11 de maio a PM da Bahia comemora o desembarque dos 77 heróis do CORPO DE POLÍCIA que retornaram da Guerra do Paraguai: isto aconteceu no dia 11 de maio de 1870. ...Para o campo de batalha (Itapiru e Beribebui) seguiram 775 policiais militares baianos” . Morreram naquela guerra 698 baianos, inclusive inúmeros feirenses, pertencentes ao 10º Corpo de Voluntários da Pátria.

No dia 11 de maio de 1870, os 77 heróis sobreviventes desfilaram no Rio de Janeiro sob o comando do Tem. Cel. Joaquim Maurício Ferreira, irmão da heroina ANA NERI. Para homenagear aqueles heróis, Feira de Santana deu o nome Rua Voluntários da Pátria à antiga Rua do Nagé, mas poucos sabem o que representa o nome Voluntários da Pátria.

Finalmente uma data inesquecível e comemorada no mês de maio: o dia das mães, que na verdade é a semana dos comerciantes, porque as mães não têm dia determinado; todos os dias são dias das mães. Basta abrirmos os olhos pela manhã para sentirmos a presença dela como esposa mãe, no carinho da mãe viva, e na saudade da mãe que um dia Deus levou. Destas, o comércio esqueceu...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gastão Clovis de Souza Guimarães (Dr. Gastão Guimarães)

O espaço de um blog é muito pouco para se falar sobre o Dr. Gastão Guimarães. O meu respeito pelo gênio que foi, a minha veneração pelo mestre de literatura que tive na Escola Normal e admiração pelo homem generoso, fazem-me sentir a "pequenez suprema", que alude em sua poesia, para falar na sua imaculável vida e na grandeza da sua obra.
A sua biografia é conhecida por todos os feirenses. Sabemos que nasceu no dia 11/04/1891 na cidade de Belmonte, no sul da Bahia; que estudou com seu padrinho João Florêncio, que recebeu diploma de doutor em Medicina, em 1912; que se casou com D. Palmira de Oliveira Freitas, natural de Feira de Santana, em 1923 e que, desde 1916, tinha residência nesta cidade.
Os seus filhos, Arminda Emília (Minda), Clementina Otília (Itã), Olga Noêmia (Niá) e Venceslau Unapetinga (Una) foram os frutos de uma exemplar família que também continuou a produzir excelentes frutos.
Em 1920, Dr. Gastão já demonstrou o seu forte espírito de abnegação, atendendo com toda dedicação aos variolosos, vítimas de uma doença muito contagiosa como a chamada "peste da varíola" que assou a Feira de Santana. Atendia rico e pobre com o mesmo carinho. Assistia na Santa casa de Misericórdia, gratuitamente, e ia ver um doente em sua resdiência, por mais humilde que fosse, sem cobrar um centavo. Em 1934/1935, voltou a enfrentar os perigos de outra terrível peste, a Bubônica, com a mesma dedicação que tivera na anterior.
Foi professor de literatura e diretor da Escola Normal e também professor no Ginásio Santanópolis juntamente com o Padre Mário Pessoa que foi seu amigo de infância desde o Colégio São José até a morte.
Em 1937, com apenas 12 anos, tive a honra de participar das festas comemorativas do seu jubileu de prata: Festa com crianças na Praça da Matriz, manifestação de organizações religiosas na Igreja Matriz, manifestação dos alunos da Escola Normal Rural de Feira de Santana, Missa em Ação de Graças, Churrasco oferecido pelos amigos para todo o povo na chácara de D. Guilhermina Motta, D. Lolô, culminando com uma festa dançante no salão da Sociedade Filarmônica Vitória, da qual fora eleito orador perpétuo.
Por todas as qualidades citadas anteriormente, e por muitas outras, que, em 2004, ano do cinquentenário de morte do saudoso Dr. Gastão, ese foi homenageado com toda justiça pelo então presidente da Câmara Municipal, Antônio Carlos Coelho, com a criação da Comenda Gastão Guimarães, destinada aos profissionais de saúde, que assim como ele, prestaram trabalhos relevantes no município.
Enfim um gesto de gratidão ao homem que foi honra e glória de Feira de Santana!

sábado, 17 de abril de 2010

O Bacalhau na Vara - Micareta de Feira

Estávamos entre amigos quando um filho de Olinda, em Pernambuco, se disse surpreso quando ouviu Hugo Navarro dizer, na Tv Subaé, que o bloco carnavalesco "Bacalhau na Vara" havia sido criado em Feira de Santana há mais de 70 anos. Ele acreditava que o "Bacalhau na Vara" era um bloco copiado do "Bacalhau do Batata" que existe em Pernambuco.
Estando em plena Micareta e mais uma vez com o desfile do Bacalhau na Vara, achamos que está na hora de contarmos a história real do bloco que nasceu de uma gozação dos comerciantes e foliões da cidade.
Não posso precisar a data, mas conheci todos os personagens que criaram e formaram o primeiro bloco. Tudo começou com o Manoel Pereira, carnavalesco que tinha uma venda (pequena merceria) na esquina do Fiado, hoje Praça da República. Manoel, para que o bacalhau, prato imprescindível na quarta feira de cinzas, ficasse com boa aparência e mais pesado borrifava-o usando água com um pouco de sal, e na quarta feira pendurava-o ao sol. Como a maioria das casas tinha o quintal cercado por varas finas da madeira candeia, ele espetava o bacalhau em cada vara do quintal e ali ficava protegendo sua mercadoria dos urubus, gatos e cachorros que sempre apareciam atraídos pelo cheiro ativo.
Quando os fregueses o procuravam e perguntavam a sua esposa por Manoel, esta informava que ele estava "com o Bacalhau na Vara". Os gozadores aproveitavam-se do duplo sentido da frase para alfinetar o Manoel, que também era outro gozador. Antoninho Bodão, dono da então Panificadora Moderna e amigo íntimo de Manoel Pereira, convenceu-o a fazer um pequeno bloco na quarta de cinzas e levar um bacalhau espetado em uma vara como se mostrasse o verdadeiro sentido da brincadeira.
Assim nasceu o Bacalhau na Vara que contava, entre outros, com o próprio Manoel Pereira, porta estandarte com um bacalhau seco enfiado em uma vara, Antoninho Bodão, Gringo Cabeçorra, Carlos Pitombo, Gilberto Falcão, Florisberto Moreira, Almiro Vasconcelos e outros. Sendo Manoel também músico da Vitória, não foi díficil arranjar outros músicos para acompanhar o bloco, que posteriormente foi ampliado e organizado com diretoria, etc.
Mas o duplo sentido do Bacalhau na Vara durou até que o bloco fosse desfeito. Depois, revigorado, perdeu o sentido da gozação antiga e está nas ruas e, durante a noite, depois de os componentes pularem muito, ainda traz aquele cheiro característico, que já não é do peixe...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Carnaval e Micareta de Feira

Lembro-me ainda dos carnavais da década de 30 e que antecederam a Micareta da provinciana Feira de Santana: a parte da manhã era aproveitada pelos pequenos blocos de mascarados que divertiam as famílias com gracejos e tentavam a amedrontar a garotada. Não faltavam os casamentos de noiva de dois metros de altura com noivo anão, que por sinal, carregava uma escada para quando quisesse beijar a noiva, ou um tabaréu ajoelhando-se para pedir bênção aos mais velhos no estilo antigo; muitos pierrôs, colombinas e arlequins, todos cantando e dançando, não faltando uns pares de músicos.
A parte da tarde era a vez dos cordões "Filhos do Sol" e "Melindrosas" que tinham como presidentes quase perpétuos Artur Nery e Manoel de Emília respectivamente. Ambos tinham suas sedes no ABC (hoje Av. Sampaio). Depois surgiu a primeira batucada, organizada por engraxates com apoio do povo. O bloco "Zé Pereira", organizado pelo pessoal da Folha do Norte, era uma espécie de arauto do carnaval. Era o primeiro a sair anunciando a chegada da festa momesca. Também no encerramento, na quarta-feira, antes da missa, saía do bairro "Fiado" o bloco "Bacalhau na Vara".
Em 1936 um grupo de foliões, liderados por Manoel da Costa Ferreira (Maneca Coletor) e pelo Prof. Antônio Garcia, revolucionou a cidade com a decisão da criação da Micareme em substituição do Carnaval. Houve debates pelos jornais com o grande mestre Antônio Garcia defendendo o nome de Micareta e não Micareme; venceu.
Maneca e outros, com a acessoria de João Bojo, convocaram todos os artistas feirenses que entendiam de alegoria e ainda trouxeram operários de Salvador que tinham experiência nos clubes Fantoche e Cruz Vermelha. No antigo armazém de fumo que também serviu de Quartel do Exército na Segunda Guerra Mundial, localizado no Fiado, hoje Praça Presidente Médici (Feiraguai), foi montada a grande oficina onde foram construídos os carros alegóricos. Cuidou-se logo de organizar o Clube Flor do Carnaval, ao qual pertenciam os carros alegóricos. Foram construídos vários carros, com destaque para uma parelha de cavalos com as patas dianteiras levantadas, outro com um enorme elefante guarnecido por guerreiros, outro com um camelo e um último cheio de baianas, as quais rodavam à medida que o carro se movia.
No dia do desfile lá estava o cordão "As Melindrosas" com a fantasia mais bonita que puderam, com grande número de participantes e todo o entusiasmo possível. Mas a Flor do Carnaval estava imbatível com a novidade de carros alegóricos. Foi uma festa grandiosa que marcou o ínicio da Micareta que ainda hoje engrandece Feira de Santana.
Embora o velho Manoel de Emília tenha elogiado a Flor do Carnaval, adaptou-se a ele, tentando-se anuviar o brilho do grande líder Maneca Ferreira, a Marchinha de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago e que dizia assim:
"Lá vem o seu Maneca na ponta do pé / Lig-lig-lig-lé / Dançanado a Flor / Que lindo Papel / Lig-lig-lig-lé.." mas Maneca imortalizou-se, a Micareta popularizou-se em todo o Brasil e ganhou nome até mesmo no Exterior..